- por Nedisson Gessi
A velocidade com que o mundo do trabalho se transforma tem colocado em xeque os modelos tradicionais de desenvolvimento profissional. As competências exigidas hoje são múltiplas, interdisciplinares e fortemente conectadas à capacidade de adaptação, pensamento crítico, empatia e inovação. Frente a esse cenário, a educação corporativa precisa ir além da oferta de conteúdos formais e reconhecer que o processo de aprendizagem não está restrito ao ambiente organizacional.
É nesse contexto que ganha força o conceito de lifewide learning – uma abordagem que valoriza as aprendizagens que ocorrem nas diversas dimensões da vida humana. Mais do que uma simples tendência, trata-se de uma mudança paradigmática que exige das organizações uma nova forma de enxergar o potencial de desenvolvimento de seus colaboradores.
O que é Lifewide Learning?
O termo lifewide learning pode ser traduzido como “aprendizagem ao longo da vida e em todas as suas dimensões”. Ele se refere ao reconhecimento de que as pessoas aprendem não apenas em espaços formais, como escolas, universidades e treinamentos corporativos, mas também em contextos informais e não estruturados: no convívio familiar, em atividades de voluntariado, em viagens, em hobbies, ao lidar com desafios pessoais ou participar de comunidades e movimentos sociais.
Essa perspectiva complementa a ideia de lifelong learning (aprendizagem contínua ao longo da vida), ao enfatizar a pluralidade dos contextos simultâneos nos quais a aprendizagem acontece. Em vez de pensar em um percurso linear de aquisição de conhecimento, o lifewide learning propõe uma visão sistêmica e integrada, onde cada experiência vivida pode gerar novos saberes, habilidades e atitudes.
Por que isso é relevante para as empresas?
No campo da educação corporativa, o reconhecimento do lifewide learning representa um avanço estratégico. Ele permite que as organizações olhem para o colaborador como um ser integral, cujas vivências pessoais influenciam diretamente sua performance, tomada de decisão, liderança e criatividade. Ignorar esse conjunto de saberes é perder a oportunidade de aproveitar competências valiosas que muitas vezes não emergem em treinamentos tradicionais.
Por exemplo, alguém que atua como líder comunitário pode trazer consigo experiências riquíssimas de mobilização, negociação e resolução de conflitos. Uma pessoa que viaja frequentemente pode desenvolver habilidades de comunicação intercultural e resiliência. Outro colaborador que cuida de um familiar com necessidades especiais pode ter desenvolvido empatia, disciplina e capacidade de planejamento com um nível de profundidade raro.
Essas experiências, muitas vezes invisibilizadas no ambiente corporativo, são fontes legítimas de conhecimento que, se bem integradas, podem gerar valor organizacional real.
Aplicações práticas do conceito
Incorporar o lifewide learning às práticas organizacionais exige uma mudança cultural e metodológica. Algumas estratégias podem facilitar esse processo:
Mapeamento de trajetórias pessoais: Em processos de onboarding, avaliação de desempenho ou mentoria, é possível explorar as experiências de vida dos colaboradores, valorizando suas narrativas e saberes construídos fora do ambiente de trabalho.
Dinâmicas reflexivas e metodologias participativas: Abordagens como a LEGO® Serious Play® permitem que os participantes representem, com elementos simbólicos, experiências vividas que geraram aprendizados significativos. Isso fortalece a autorreflexão e a construção coletiva de sentido.
Programas de aprendizagem entre pares: Ao criar espaços de troca entre profissionais de diferentes áreas, idades e perfis, as empresas favorecem a circulação de saberes diversos e o reconhecimento da riqueza das vivências pessoais.
Ambientes de escuta ativa e feedback ampliado: Valorizar o que o colaborador traz em sua bagagem de vida exige abertura e escuta por parte das lideranças. Uma cultura de feedback bem estruturada deve incluir também o reconhecimento de competências informais.
Integração com programas de bem-estar e ESG: Iniciativas que envolvem voluntariado, projetos sociais, práticas de sustentabilidade e cuidado com a saúde mental podem ser vistos não apenas como benefícios, mas também como espaços de desenvolvimento humano e profissional.
Lifewide learning e o profissional do futuro
Falar sobre o profissional do futuro é, na prática, discutir um perfil humano em constante reconstrução. Já não basta dominar competências técnicas ou cumprir metas operacionais. O profissional que as organizações buscam – e que o mundo precisa – é aquele que combina autonomia, adaptabilidade, colaboração e propósito. Essas competências, cada vez mais valorizadas, não são adquiridas unicamente em cursos formais ou treinamentos corporativos. Elas emergem de experiências reais, desafiadoras e muitas vezes não estruturadas – exatamente o que o lifewide learning reconhece como fonte legítima de aprendizado.
Nesse contexto, destacam-se três dimensões fundamentais para o desenvolvimento do profissional do futuro:
Habilidades Socioemocionais: empatia, escuta ativa, inteligência emocional e comunicação não violenta são construídas em interações humanas autênticas – muitas vezes em ambientes fora do trabalho, como no voluntariado, na criação de filhos ou na vivência intercultural. Essas experiências moldam a forma como o profissional se posiciona em equipes, lidera com consciência e toma decisões em ambientes complexos.
Pensamento Crítico e Visão Sistêmica: o mundo contemporâneo exige profissionais capazes de compreender contextos amplos, articular diferentes áreas do conhecimento e propor soluções inovadoras. Essas competências ganham força quando o indivíduo é exposto a múltiplas realidades, culturas e desafios que extrapolam os limites da sua zona de conforto. O lifewide learning favorece esse repertório ao integrar vivências pessoais e profissionais em um único processo contínuo de aprendizagem.
Protagonismo e Aprendizagem Autodirigida: mais do que absorver conhecimento, o profissional do futuro precisa saber como aprender, desaprender e reaprender com agilidade. Isso implica cultivar uma postura ativa frente aos próprios processos de desenvolvimento. O reconhecimento das aprendizagens da vida – em todas as suas dimensões – fortalece o senso de autoria e de responsabilidade pelo próprio crescimento.
Organizações que fomentam ambientes onde essas dimensões são valorizadas constroem ecossistemas de aprendizagem vivos, onde o colaborador é sujeito do processo e não apenas consumidor de conteúdos. Nesses ambientes, o conhecimento não é transferido, mas construído de forma colaborativa, integrada à realidade, ao cotidiano e às experiências plurais de cada indivíduo.
Portanto, o lifewide learning não é apenas uma lente teórica: é uma via concreta para formar profissionais preparados para os desafios do presente e para os que ainda não conhecemos – profissionais éticos, adaptáveis, empáticos e profundamente conectados com o mundo ao seu redor.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Adotar o lifewide learning como base para a educação corporativa é mais do que uma inovação conceitual — é uma resposta coerente e necessária aos desafios de um mundo em constante transformação. Essa abordagem convida as organizações a enxergarem o ser humano em sua totalidade, reconhecendo que o desenvolvimento não ocorre apenas nas salas de aula ou nas trilhas de capacitação, mas também nas vivências cotidianas, nos momentos de superação, nas interações sociais e nas escolhas pessoais que moldam identidade, caráter e propósito.
Ao incorporar essa visão ampliada, as empresas fortalecem sua inteligência organizacional, promovem culturas de aprendizado mais inclusivas e constroem ambientes onde os colaboradores se sentem valorizados não apenas pelo que sabem fazer, mas por quem são e pelo que vivem. O lifewide learning permite ir além do modelo tradicional centrado em competências técnicas e abre espaço para o florescimento de habilidades humanas essenciais — como empatia, escuta, resiliência, criatividade e pensamento crítico.
Trata-se, portanto, de uma estratégia com alto potencial de impacto tanto no nível individual quanto coletivo: indivíduos mais conscientes de suas aprendizagens tornam-se protagonistas de sua própria trajetória; equipes mais diversas em experiências se tornam mais colaborativas e inovadoras; e organizações que reconhecem e integram os múltiplos saberes de seus talentos tornam-se mais adaptáveis, sustentáveis e preparadas para o futuro.
Implementar o lifewide learning demanda escuta ativa, revisão de práticas, abertura à diversidade de histórias e construção de ecossistemas onde a aprendizagem seja contínua, fluida e contextualizada. Mais do que acompanhar tendências, trata-se de reconhecer que aprender é um ato de viver — e viver é, inevitavelmente, um processo de aprender.
Ao valorizar essa integração entre vida e aprendizagem, as organizações não apenas desenvolvem melhores profissionais, mas contribuem para formar seres humanos mais completos, conectados consigo, com o outro e com o mundo. E esse talvez seja o mais relevante legado que qualquer empresa pode deixar.
REFERÊNCIAS
JACKSON, Norman. Learning for a complex world: A lifewide concept of learning, education and personal development. AuthorHouse UK, 2011.
NONAKA, Ikujiro; TAKEUCHI, Hirotaka. Criação de conhecimento na empresa: como as empresas japonesas geram a dinâmica da inovação. Rio de Janeiro: Campus, 1997.
HEIFETZ, Ronald A.; LINSKY, Marty. Leadership on the line: Staying alive through the dangers of leading. Harvard Business School Press, 2002.
SCHLOSSER, Manuela. Lifewide learning: An approach to integrate education and life experiences. Journal of Transformative Learning, v. 5, n. 1, p. 25–38, 2017.